14 de mar de 2011

Pesadelo ainda não acabou

Fonte: O Dia Online


Dois meses após tragédia das chuvas na Região Serrana, vítimas ainda sofrem em abrigos

POR CELSO OLIVEIRA
Rio - Dois meses após a tragédia que devastou sete cidades da Região Serrana do estado, matando 910 pessoas, enorme legião de sobreviventes ainda agoniza à espera de um direito básico: moradia. Até sexta-feira, a Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil contava 12.639 desabrigados pelo temporal de 12 de janeiro. Outros 23.092 tiveram os seus imóveis interditados.
Foto: Fabio Gonçalves / Agência O Dia
Escombros e imóveis pela metade após serem atingidos por enxurrada na Rua Juvenal Namen, em Friburgo, mostram a dimensão dos problemas que a população ainda enfrenta | Foto: Fabio Gonçalves / Agência O Dia
Em Nova Friburgo, onde morreram 426 pessoas, 387 famílias ainda se amontoam em 26 abrigos. Num deles, a dor de uma dona de casa pela perda de três filhos soterrados na lama se agrava com a desesperança de conseguir novo lar. “Esperamos um milagre de Deus”, desabafou Joelma Santos Botelho, 31.

Além da morte dos filhos de 4, 11 e 13 anos, Joelma ficou com pedaço de madeira cravado na cabeça e cacos de vidro nas costas. Um dos dois filhos que sobreviveram ao desmoronamento da casa no bairro São Geraldo — o caçula de 2 anos — por pouco não perdeu perna com infecção. Após o drama, novo martírio começou no abrigo do bairro Olaria, o maior, onde estão 153 famílias.

“Não falta comida e água, mas estranhos entram para dormir e até algumas famílias têm trazido parentes e amigos que não são desabrigados”, reclamou ela, que vive há um mês e duas semanas com nove pessoas num quarto de 20 metros quadrados.

Trauma

Traumatizado com a morte dos irmãos, o outro filho de Joelma, de 9 anos, tem se envolvido em brigas no abrigo e, segundo a mãe, já foi agredido por adultos. “As pessoas não têm paciência. O comportamento dele mudou. Viu os irmãos morrendo”, diz ela.

O governo federal prometeu construir as primeiras 800 casas para os desabrigados de Friburgo no bairro Fazenda Lage, mas a família de Joelma e outras se queixam do local. “É isolado, sem comércio e linhas de ônibus”, afirma ela.

Antes das obras, a prefeitura espera erguer 50 casas em outro bairro. O terreno, na localidade Invernada, deve ser desapropriado nessa semana. “A construtora faz as casas em 45 dias. Nossa ideia é dar as moradias mobiliadas”, planeja o prefeito Demerval Neto.

Ocupação de imóveis interditados

Quem circula nas cidades atingidas pelo temporal tem uma certeza: ainda há muito o que fazer e a reconstrução vai levar bastante tempo. Em cada canto há marcas da tragédia: montes de lama, imóveis destruídos e crateras abertas nos morros onde houve deslizamentos.

As autoridades enfrentam ainda duas operações muito complexas: dar um fim às milhares de toneladas de entulho e mapear áreas de risco. Em Friburgo, cerca de mil imóveis estão interditados, mas há pessoas que teimam em reocupá-los.

“Nesses locais de risco os serviços de água e luz serão cortados, através de acordo que fizemos com as concessionárias e o Ministério Público”, avisou o prefeito Dermeval Neto.

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