Fonte: O Dia Online
O DIA mostra o cotidiano de medo nas favelas da Coreia, Serrinha, Parada de Lucas e Vila Aliança, onde a pacificação está distante e a tirania dos traficantes resiste
Rio - Apoiado num muro de concreto, o homem aponta o fuzil calibre 7.62 na direção da Avenida Brasil, uma das entradas da Favela de Parada de Lucas, na Zona Norte. Ele é um dos ‘soldados’ das quadrilhas que dominam quase mil favelas no estado, ditando regras, direitos e deveres a mais de 1,2 milhão de pessoas. O sonho das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), materializado a partir de dezembro de 2008 em 47 comunidades, ainda está distante para essa fatia da população. Nesses locais, a lei do mais forte ainda impera na ponta do fuzil.
Ao longo da semana passada, vídeos obtidos por O DIA mostraram a rotina dos que vivem sob o jugo de traficantes da Zona Oeste, em especial no Complexo da Coreia e comunidades vizinhas, em Senador Camará. Agora, filmagens e fotos de outras três comunidades — Vila Aliança, em Bangu; Morro da Serrinha, em Madureira; e Parada de Lucas —, entre maio do ano passado e fevereiro deste ano, revelam novos abusos contra o poder do Estado.
São regiões onde trabalhadores tentam criar seus filhos em meio a barricadas construídas com troncos de árvore e concreto nas ruas. Onde as cracolândias e suas mazelas se proliferam. E, dentro de territórios restritos, onde o comércio de maconha, cocaína e crack é feito aos gritos, em autênticas feiras-livres, sob a proteção de máquinas de guerra.
As imagens chocam ainda mais pela forma com que moradores têm que encarar o cotidiano de horror. A cena de bandidos armados sentados na porta de um bar lotado de caça-níqueis revela um pouco dessa intimidade forçada. “Nem olho. Ando sempre de cabeça baixa”, diz, resignada, uma moradora da Vila Aliança.
Os traficantes flagrados controlam comunidades dominadas ligados à facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP). Mas, para quem é obrigado a viver sob as ordens deles, não há qualquer distinção. “Eles estupram e matam os outros sem piedade”, lamenta um senhor que vive na Coreia.
Enquanto uma solução — seja ela através de uma UPP ou de outra ação do Estado — não se concretiza, os reféns do medo são obrigados a continuar se escondendo, baixando a cabeça e pedindo para jamais terem seus nomes revelados em reportagens.
Munido de fuzil, o filho do antigo chefão
As imagens do armamento ostensivo em Parada de Lucas remetem ao passado. Com um fuzil modelo G3 nas mãos, Rômulo Oliveira da Silva, o Furacão, de 18 anos, é filho do principal chefe do tráfico da história da comunidade e um dos fundadores da facção Terceiro Comando, José Roberto da Silva Filho, o Robertinho de Lucas.
Em novembro, Rômulo foi preso pela PM com uma pistola. Na semana seguinte, porém, ganhou a liberdade e nada ficou provado contra ele. Mas a foto obtida por O DIA revela o poder do homem que hoje já é considerado braço direito de Ronaldo Rocha Dias da Silva, o Tiãozinho, atual chefão do ‘território’ que já foi de seu pai.
Reportagem de Francisco Edson Alves e Leslie Leitão

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