9 de abr de 2011

Depois da tragédia, um abraço emocionado

Fonte: O Dia Online


Sobrevivente do ataque em escola, a pequena Jady consegue realizar o desejo de encontrar os policiais militares que interromperam massacre ainda maior em Realengo

Rio - ‘Vocês são os meus heróis’. A frase, carregada de emoção, foi a primeira dita pela pequena Jady Ramos, de 12 anos, sobrevivente da tragédia em Realengo, quando corria para abraçar os dois policiais militares que salvaram a sua vida. Pouco mais de 24 horas após o massacre, a aluna da Escola Municipal Tasso da Silveira encontrou o sargento Márcio Alexandre Alves e o cabo Ednei Feliciano da Silva, e deu aos PMs o mais sincero reconhecimento pela missão cumprida.
A emoção tomou conta do sargento, que ficou com os olhos cheios de lágrimas ao ver Jady. Ele, o cabo Ednei, a menina e sua mãe, a costureira Maria Lúcia Ramos, de 43 anos, se uniram num abraço que comoveu quem assistia à cena, ontem à tarde.
Foto: Alexandre Brum / Agência O Dia
Foto: Alexandre Brum / Agência O Dia
Conhecer o homem que salvou sua vida era um desejo da estudante, que chegou a procurá-lo na tarde de quinta-feira, mas não o encontrou na porta do colégio. A menina escreveu carta de agradecimento, mas teve a chance de dizer pessoalmente o que sentiu ao escapar da morte: “Obrigado por me salvar e pela nova oportunidade de viver”.

Ainda muito abatido, Alves não conseguiu definir o turbilhão de sentimentos e, com Jady no colo, desabafou.

“É uma mistura de sentimentos. Tristeza pelas vítimas fatais e alegria por saber que salvei o futuro dessa criança”, afirmou o PM, para complementar: “Dizem que homem não chora, mas sou humano e não resisti”. 

‘Integrantes da família’

As lágrimas também marejaram os olhos do cabo Ednei, que era só sorrisos e afagos com Jady. “São momentos como esse que dão sentido ao nosso trabalho”, definiu. 

O carinho da menina foi retribuído pelo sargento com conselhos que ele dá diariamente ao filho, Vítor Alexandre, da mesma idade de Jady: “Deus te deu a oportunidade de se salvar. Então, continue nesta linha do estudo. Estude bastante. É o que digo sempre ao meu filho”, lembrou. 

Mãe da estudante, Maria Lúcia acompanhou o encontro e também fez questão de expressar gratidão. “Se você não estivesse lá, eu não teria nenhuma esperança de encontrar a minha filha viva”.

No fim da conversa, a mãe fez questão de pegar os números de telefone dos policiais e revelou a importância deles para a família depois da tragédia. “Eles se tornaram integrantes da família. Quero ter contato e convidá-los para todas as celebrações especiais que fizermos em casa”.

Cafuné da mãe, entrevistas e passeio em shopping

Após uma noite difícil, onde só foi possível dormir com o cafuné da mãe, Jady teve um dia corrido ontem, com entrevistas e gravações. Para se distrair e tirar da memória, mesmo que momentaneamente, as imagens de pânico vividos na escola, ela passeou com a mãe em um shopping da Zona Norte. 

A cada dez metros, pessoas a reconheciam e faziam questão de abraçá-la. “É bom saber que estão desejando o meu bem. Dá mais força”, revelou Jady.

Para o fim de semana, os planos são de se afastar do local da tragédia. “Vou levá-la para passear amanhã (hoje) no borboletário de Oswaldo Cruz. Domingo, vamos preparar um almoço em família”, adiantou a mãe da menina, Maria Lúcia.

A criança aguarda autorização para entrar na escola e buscar o material escolar deixado para trás. “Minha mãe tentou pegar, mas não conseguiu. Semana que vem, quando for na missa de 7º dia, eu busco”. 

PMs vivem dia de elogios e de sentimento do dever cumprido

O dia ontem foi de reconhecimento público para os PMs. Eles deram entrevistas e foram parabenizados pelo deputado federal Alessandro Molon, da Comissão de Segurança Pública da Câmara, que vai acompanhar as investigações do massacre. O comandante do 14º BPM, tenente-coronel Djalma Beltrami, chorou ao relembrar a ação. “Tenho a convicção de que, se não fosse o sargento e sua equipe, a tragédia seria muito maior. Me sinto orgulhoso”. 


Chamado de herói por todos, o sargento Alves rejeita o título e diz que apenas cumpriu seu dever: “Não me sinto assim. Cumpri minha obrigação e o juramento que fiz quando entrei para a corporação. Não teve heroísmo, foi cumprimento do dever”. Indagado se os filhos estudam em escola pública, ele respondeu rápido: “Graças a Deus, estudam em escola particular e a que tenho condição de pagar. Só peço a eles que estudem, porque esse é o futuro”. 

Ao chegar em casa, 5ª feira, a primeira coisa que fez foi beijar os filhos e a mulher: “Meu filho me abraçou e disse que está orgulhoso. Isso é o mais importante. Mas não dormi direito. Quando fechava os olhos, dava aqueles flashes do local, das crianças, do atirador. O que me fez dormir foi o cansaço, que me venceu”.

Psicopata mata 12 estudantes em colégio municipal

Manhã de 7 de abril de 2011. São 8h20 de mais um dia que parecia tranquilo na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Zona Oeste. Mas o psicopata que bate à porta da sala 4 do segundo andar está prestes a mudar a rotina de estudantes e professores, que festejam os 40 anos do colégio. Wellington Menezes de Oliveira, um ex-aluno de 24 anos, entra dizendo que vai dar palestra. Coloca a bolsa em cima da mesa da professora, saca dois revólveres e dá início a um massacre em escola sem precedentes na História do Brasil. Nos minutos seguintes, a atrocidade deixa 12 adolescentes mortos e 12 feridos. 

Transtornado, o assassino atacou alunos de duas turmas do 8º ano (1.801 e 1.802), antiga 7ª série. As cenas de terror só terminam com a chegada de três policiais militares. No momento em que remuniciava dois revólveres pela terceira vez, o assassino é surpreendido por um sargento antes de chegar ao terceiro andar da escola. O tiro de fuzil na barriga obriga Wellington a parar. No fim da subida, ele pega uma de suas armas e atira contra a própria cabeça.

Na escola, a situação é de caos. Enquanto crianças correm — algumas se arrastam, feridas —, moradores chegam para prestar socorro. PMs vasculham o prédio, pois havia a informação da presença de outro atirador. São mais cinco minutos de pânico e apreensão. Em seguida, começa o desespero e o horror das famílias.

A notícia se alastra pelo bairro. Parentes correm para a escola em busca de notícias. O motorista de uma Kombi para em solidariedade. Ele parte rumo ao Hospital Albert Schweitzer, no mesmo bairro, com seis crianças na caçamba, quase todas com tiros na cabeça ou tórax.


Wellington, que arrasou com a vida de tantas famílias, era solitário. Segundo parentes, jamais teve amigos e passava os dias na Internet ou lendo livros sobre religião. Naquela mesma escola, entre 1999 e 2002, período em que lá estudou, foi alvo de ‘brincadeiras’ humilhantes de colegas, que chegaram a jogá-lo na lata de lixo do pátio.

A carta encontrada dentro da bolsa do assassino tenta explicar o inexplicável. Fala em pureza, mostra uma incrível raiva das mulheres — dez dos 12 mortos — e pede para ser enrolado num lençol branco que levou para o prédio do massacre. O menino que não falava com ninguém deixou seu recado marcado com sangue de inocentes estudantes de Realengo.

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