11 de abr de 2011

Estudante baleada fingiu estar morta para escapar

Fonte: O Dia Online


Professora da sala em que assassino fez primeiros disparos diz que não consegue esquecer os minutos de horror. Três alunos feridos ainda estão em estado grave

Rio - Estudantes que escaparam da fúria assassina do atirador Wellington Menezes de Oliveira, na quinta-feira, na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Zona Oeste da cidade, tentam superar os traumas e recomeçar com a ajuda de amigos. Ontem uma das quatro vítimas internadas em estado grave apresentou melhoras e não corre risco de morrer. Tayane Tavares Monteiro, 13 anos, que levou quatro tiros, o primeiro disparado contra a cabeça, falou pela primeira vez como se fingiu de morta para sobreviver ao massacre. Atleta, a adolescente, internada no CTI do Hospital Adão Pereira Nunes, em Saracura, Duque de Caxias, corria o risco de ficar paraplégica.


A professora de Tayane, Leila Maria D’Angelo da Costa, 49 anos, reviveu ontem os momentos de horror. “Nem percebi que o Allan, que saiu correndo junto comigo e outros alunos, estava ferido”, disse. Rubro-negro, o pequeno herói que chamou a polícia e evitou tragédia maior, ferido por três tiros, ganhou sábado um presente especial: uma camisa do Flamengo autografada da presidenta do clube, Patrícia Amorim, no Hospital da Polícia Militar, no Estácio. “Valeu a pena ter visto o sorriso, a alegria no rosto dele”, contou Patrícia.

Foto: Divulgação
Patrícia Amorim, presidente do Flamengo, entrega ao herói Allam a camisa do time rubro-negro | Foto: Divulgação
Três em estado grave

Dos 10 adolescentes internados, três ainda estão em estado grave. São eles: E. C. A. A., 14 anos, baleado no abdômen e mão, permanece sedado, respirando por aparelhos; D. D. V., 12, baleado no abdômen, está no CTI. Os dois continuam no Hospital Albert Schweitzer, em Realengo. Já L. V. S. F., 13, baleado no olho e operado, respira por aparelhos no Hospital de Saracuruna.

Ontem, 12 bandeiras do Brasil manchadas de tinta vermelha, simbolizando sangue, foram estendidas na areia da Praia de Copacabana, Zona Sul do Rio, em homenagem aos jovens mortos. Além de prestar solidariedade às famílias das vítimas, o movimento Rio de Paz reivindicou combate ao tráfico de armas. Manifestantes seguravam cartazes com os nomes dos 12 mortos.

Homenagem no clássico

A paixão do menino Allan pelo Flamengo será retribuída pela presidente do clube, Patrícia Amorim, que prometeu levar o estudante a um treino e a um jogo do time assim que ele se recuperar. Ontem, antes do início da partida contra o Botafogo, no Engenhão, o time do Flamengo homenageou os mortos de Realengo. Yago, que sobreviveu à chacina, entrou em campo de mãos dadas com Ronaldinho Gaúcho vestindo camisa branca do Flamengo, com os nomes das 12 crianças mortas. A torcida estendeu faixas pretas nas arquibancadas em sinal de luto.

Psicopata mata 12 estudantes em colégio municipal

Manhã de 7 de abril de 2011. São 8h20 de mais um dia que parecia tranquilo na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Zona Oeste. Mas o psicopata que bate à porta da sala 4 do segundo andar está prestes a mudar a rotina de estudantes e professores, que festejam os 40 anos do colégio. Wellington Menezes de Oliveira, um ex-aluno de 24 anos, entra dizendo que vai dar palestra. Coloca a bolsa em cima da mesa da professora, saca dois revólveres e dá início a um massacre em escola sem precedentes na História do Brasil. Nos minutos seguintes, a atrocidade deixa 12 adolescentes mortos e 12 feridos. 

Transtornado, o assassino atacou alunos de duas turmas do 8º ano (1.801 e 1.802), antiga 7ª série. As cenas de terror só terminam com a chegada de três policiais militares. No momento em que remuniciava dois revólveres pela terceira vez, o assassino é surpreendido por um sargento antes de chegar ao terceiro andar da escola. O tiro de fuzil na barriga obriga Wellington a parar. No fim da subida, ele pega uma de suas armas e atira contra a própria cabeça.

Na escola, a situação é de caos. Enquanto crianças correm — algumas se arrastam, feridas —, moradores chegam para prestar socorro. PMs vasculham o prédio, pois havia a informação da presença de outro atirador. São mais cinco minutos de pânico e apreensão. Em seguida, começa o desespero e o horror das famílias.

A notícia se alastra pelo bairro. Parentes correm para a escola em busca de notícias. O motorista de uma Kombi para em solidariedade. Ele parte rumo ao Hospital Albert Schweitzer, no mesmo bairro, com seis crianças na caçamba, quase todas com tiros na cabeça ou tórax.

Wellington, que arrasou com a vida de tantas famílias, era solitário. Segundo parentes, jamais teve amigos e passava os dias na Internet ou lendo livros sobre religião. Naquela mesma escola, entre 1999 e 2002, período em que lá estudou, foi alvo de ‘brincadeiras’ humilhantes de colegas, que chegaram a jogá-lo na lata de lixo do pátio.

A carta encontrada dentro da bolsa do assassino tenta explicar o inexplicável. Fala em pureza, mostra uma incrível raiva das mulheres — dez dos 12 mortos — e pede para ser enrolado num lençol branco que levou para o prédio do massacre. O menino que não falava com ninguém deixou seu recado marcado com sangue de inocentes estudantes de Realengo.

Reportagem de Helvio Barros e Maria Luisa Barros

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