8 de jun de 2011

Força-tarefa para soltar e anistiar os bombeiros

Fonte: O Dia Online


Justiça nega pedidos de habeas corpus a militares que invadiram o QG. O novo comandante da corporação visitou presos e recebeu manifestantes em seu gabinete

Rio - Ainda longe da solução, a crise no Corpo de Bombeiros movimentou, ontem, plenários da Câmara dos Deputados e da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). O Superior Tribunal de Justiça (STJ) solicitou explicações ao governador Sérgio Cabral, e a Defensoria Pública pediu, à Auditoria de Justiça Militar, o relaxamento da prisão para os 439 militares presos. Dois habeas corpus já foram negados pela Justiça. Em despacho, a juíza Maria Izabel Pena Pieranti, considera a invasão ao quartel “uma lástima”.
Bombeiros rasparam as cabeças em sinal de protesto | Foto: Carlos Moraes / Agência O Dia
Em Brasília, os deputados federais Alessandro Molon (PT) e Anthony Garotinho (PR) protocolaram, separadamente, projetos de lei para anistiar os bombeiros detidos. No Rio, 37 parlamentares da Alerj, inclusive da base governista, assinaram documento em apoio à categoria. “O objetivo do meu projeto é que o Congresso ajude o Rio a encontrar uma saída pacífica”, disse Molon.

A crise dos bombeiros pôs em alerta outros estados, que temem que o movimento grevista se espalhe pelo País e, por isso, tentam participar das negociações com o governo Cabral. “O movimento no Rio causa perplexidade no País. É preciso evitar mobilização nacional e manifestos semelhantes”, disse, no rio, o deputado federal do Sergipe Mendonça Brado (DEM).
O Ministério Público informou que receberia da Justiça processo para ser analisado em até 5 dias úteis. Os promotores têm esse prazo para se pronunciar, apresentando denúncia contra os bombeiros ou representando pelo arquivamento do processo. A Associação de Cabos e Soldados dos Bombeiros colocou seu corpo jurídico à disposição para atender aos detidos.
Apoio de policiais, que planejam parar
Associações e sindicatos da área de Segurança Pública se reúnem hoje, às 11h, para definir ações conjuntas de apoio aos bombeiros em greve. O encontro será na Rua Gomes Freire 196, 3º andar, Centro.
Já está definido que policiais militares e civis também vão participar da passeata que será realizada no próximo domingo, às 10h, na Praia de Copacabana.
O Sindicato dos Policiais Civis planeja realizar operação padrão no fim do mês. Assembleia na sexta-feira definirá o período da paralisação.
Prisão em quartel de Charitas lembra local de acolhida de desabrigados

O quartel de Charitas onde estão presos 430 dos 439 bombeiros mais parece local de acolhimento de desabrigados. Bombeiros<MC0> têm que caminhar sobre os colchonetes dos colegas, e até as traves do campo de futsal viraram varais para roupas e toalhas. Bombeiros se queixam que de dia o local é abafado e à noite, muito frio.

“Meu pai é herói. Vou te salvar”. Os dizeres, escritos numa capa vermelha usada por Enzo Prata, 3 anos, comoveu os bombeiros durante o horário de visitas, ontem à tarde. De máscara preta, ele foi matar as saudades do pai, o cabo Santiago Prata, 32, do 4º Grupamento Marítimo (G-Mar), de Itaipu, preso.

Ana Maria do Amaral, 59, também foi à unidade rever os três filhos presos, os sargentos Alexandre, 41, Fábio, 37, e o cabo André, 36, lotados no 3º G-Mar. “Meus filhos são o orgulho de nossa família. Não merecem estar aqui, como bandidos”, lamentou. Entre os presos, há militares que atuaram no resgate das vítimas do terremoto no Haiti, em 2010, como o cabo Ovídeo Cordeiro, 38.

Comandante visita presos e recebe manifestantes no Quartel-Central
O novo comandante-geral do Corpo de Bombeiros do Rio, coronel Sérgio Simões, sentiu, ontem, que não será fácil acabar com a crise. No quartel de Charitas, ele pediu aos detentos um voto de confiança. Mas os detidos afirmaram à imprensa que não o reconhecem como interlocutor entre eles e o governador Sérgio Cabral. À noite, o coronel recebeu sete manifestantes e o presidente da Alerj, deputado Paulo Melo (PMDB) — que propôs fazer a ponte entre os militares e o governo — no QG. 

“A proposta é de conciliação, de entendimento”, afirmou o coronel, que conversa hoje com o governador sobre vale transporte para os militares, conforme antecipou o ‘Informe do DIA’.

“Ou nossos líderes (presos) negociam em nosso nome, ou não há negociação”, afirmou um cabo que participou da reunião com Simões. Em carta, os líderes orientam quem está solto a só negociar a libertação deles. Simões propôs que os presos fossem transferidos a o seu quartel, mas eles recusaram. Ele permitiu visita diária de familiares.

Reportagem de Christina Nascimento e Francisco Édson Alves

Um comentário:

Carlos disse...

Por que o ato dos bombeiros cria um precedente perigoso

Os bombeiros assim como qualquer categoria têm o direito de pedir melhoria salarial, ocorre que por servirem junto com a PM, sob regime militar, lhes é vetado o direto à greve. Nos últimos dias o que tenho visto no Rio é um circo. Uma categoria que vem sendo “doutrinada” por políticos faz meses, chega ao ponto de rasgar sua lei militar, invadir um quartel, ocupar e inutilizar viaturas.
Ora, isso é inadmissível em um estado de direito. Imaginemos se médicos decidem fazer greve, invadir hospitais, furar pneu das ambulâncias e trancar as portas; E se um dia policiais em greve ocuparem os presídios e ameaçarem soltar os presos? Não obstante, teríamos ainda a possibilidade de Soldados do exército em greve, colocarem tanques para obstruir vias. Pergunto: Onde a sociedade vai parar? É esse o precedente que a sociedade deseja abrir com os bombeiros?
Para que não corramos esse risco há uma legislação militar que rege as FFA, Bombeiros e a PM. Independente de qualquer pleito salarial, ela tem de ser respeitada. No momento em que a sociedade permitir que essa lei seja ignorada, estará pondo em risco sua própria ordem.

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