11 de jul de 2011

Vídeo mostra como atuava quadrilha que liberava veículos rebocados no RJ

Fonte: G1 Rio de Janeiro


Grupo conseguia retirar ilegalmente carros de depósitos públicos do Rio.
Prefeitura diz que vai romper contrato com empresa onde atuavam presos.


Do Fantástico
Antes da operação que começou a desmontar uma quadrilha que liberava ilegalmente veículos rebocados que eram guardados em depósitos públicos no Rio de Janeiro, o Fantástico entrou em contato com os fraudadores para mostrar como eles agiam, tentando liberar um carro rebocado.
No início da semana, o Fantástico estacionou um carro em um local proibido em frente à Prefeitura do Rio. O carro foi devidamente multado e rebocado. A equipe de reportagem telefonou para uma das despachantes do grupo. “A senhora acha que dá para a gente tirar esse carro hoje?”, pergunta o repórter. “Leva os documentos que eu vou analisar”, disse a despachante, ao marcar o encontro. O "escritório" dela era um bar, até ser presa na última quinta-feira (7), junto com outros 18 suspeitos de fazer parte do grupo.

Quando a equipe de reportagem começou a negociar com a operadora da quadrilha, ela aproveitou para contar como era eficiente. “’Caraca’, eu tirei agora mais de cem multas de um cliente meu”, comentou a funcionária. Mas, ao ser presa, ela veio com outra conversa. “A senhora é despachante?”, pergunta o repórter. “Não”, responde a mulher.
Mas a equipe de reportagem não levou os documentos do dono do carro. Ela diz então que pode usar os documentos do repórter, mesmo ele não sendo o proprietário do veículo apreendido. “Preciso por e-mail da cópia da sua identidade ou habilitação. Habilitação em dia. Cópia da habilitação, cópia de um comprovante de residência atualizado”, orienta a despachante.
Para ela, é mais fácil falsificar uma carteira de identidade do que uma de motorista. “Para a gente montar na carteira de motorista é pior do que na identidade, não é isso? Tem isso”, afirma a despachante.
A equipe de reportagem não entregou nada, nem fez a transação para liberar o carro ilegalmente. A quadrilha falsifica documentos também para liberar dos depósitos carros de quem já morreu. É o que quer um cliente. “Meu sogro faleceu, nós não sabíamos da existência do carro”, contou.
Em um telefonema gravado pela polícia, a despachante avisa ao ajudante dela que precisa liberar o carro de outro morto.
Despachante: Pelo amor de Deus! Amanhã ‘tu pode’ ir cedo, que chegou um morto pra nós?
Ajudante: Oh, claro. Sim! Sim!
Já em uma conversa com o supervisor de um dos depósitos públicos, a despachante diz que a quadrilha ganha mais dinheiro anulando multas.
Despachante: Vou te explicar mais ou menos como é que é. O cara tem multa, vou dar meu jeito.
Supervisor: Beleza.
Despachante: Isso a gente ganha um dinheiro.
Segundo a polícia, quem apagava as multas era o homem que foi preso na Secretaria de Transportes. Ele trabalhava justamente no setor de recurso de multas. Já a despachante é funcionária da Assembleia Legislativa do Piauí, e ganha R$ 2.250 brutos.
“Essa servidora está de licença-prêmio durante seis meses para acompanhar o tratamento de sua filha no Rio de Janeiro”, afirmou Temístocles Filho, presidente da Assembleia Legislativa do Piauí.
As investigações mostram que, pelo menos, 40 carros foram furtados depois de rebocados.
Um dos veículos era de um homem que falou com a equipe do Fantástico. “Eu paguei tudo, que era para eu ir buscar o veículo. Aí ninguém sabia aonde estava meu carro”, conta.
Outra vítima do furto diz que chegou a ver o carro dentro do depósito. “Além de ver, eu estive dentro do meu carro. Eu fui até o depósito no mesmo dia, o carro foi deslacrado, novamente lacrado e assinado por mim, uma vez que os documentos estavam no interior do veículo, e eu tive que retirar esse documento do veículo”, lembra o advogado Paulo Henrique Oliveira.
A prefeitura do Rio tem quatro depósitos que guardam os carros rebocados. Em um dos
depósitos, o maior da cidade, funciona também o escritório que concentra toda a documentação das apreensões feitas diariamente. Segundo a polícia, por causa da facilidade de acesso às informações de proprietários e veículos, foi montada uma espécie de central da quadrilha.
Em média, quatro mil veículos são apreendidos por mês na cidade. A maioria dos envolvidos no esquema era funcionária de apenas uma empresa, a Locanty, que tem o contrato de gerenciamento dos depósitos e do próprio serviço de reboques. Entre os presos, estão todos os supervisores dos depósitos e o chefe deles.
“É inadmissível que um serviço público tão importante para a sociedade seja prestado por pessoas que não tinham fiscalização nenhuma”, afirma o delegado Márcio Mendonça, da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA).

Na sexta-feira (8), o secretário especial de Ordem Pública, Alex Costa, responsável pelo contrato com a empresa Locanty, afirmou em entrevista que a fiscalização do serviço cabia à própria empresa e não à prefeitura. Mas depois a prefeitura informou que vai romper o contrato com a empresa. "A empresa não tem menor condição de dar continuidade ao contrato, de manter os serviços que a prefeitura deseja que se mantenha para servir a cidade do Rio de Janeiro", afirmou Costa, neste domingo (10).
A empresa tem outros contratos com a prefeitura, para limpeza e conservação, além de uma concessão para recolhimento de lixo. Em nota, a Locanty afirma que não tem responsabilidade sobre os crimes, e se diz vítima de ex-funcionários e terceiros.
“O que me interessa é saber onde está meu carro. Quem retirou o meu carro? Com que documento retiraram meu carro? Só isso que eu queria saber”, disse Paulo Henrique Oliveira, vítima da máfia do reboque.

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