Fonte: O Dia Online
Jovens de Niterói tiveram primeiros sintomas da doença dia 6, mas combate só foi feito dia 24. Ministério condena a demora
Rio - A demora da Prefeitura de Niterói para combater mosquitos Aedes aegypti contaminados com o vírus da dengue 4 pode ter contribuído para disseminar esse que tipo da doença, que jamais havia sido identificada no estado. Desde que as duas jovens irmãs moradoras da cidade apresentaram os primeiros sintomas de doença, passaram-se 18 dias para que o município fosse à casa delas verificar a existência de focos.

Piscina abandonada em Vila Valqueire se transforma em foco de insetos. Vizinha do local, Marli Salgueiro, 56 anos, está preocupada | Foto: Paulo Alvadia / Agência O Dia
A lentidão foi condenada ontem pelo Ministério da Saúde. “Cada vez que um caso de dengue é detectado no sistema de saúde, os agentes devem fazer o bloqueio no dia seguinte ou dois dias depois. É importante ir à casa do paciente, à rua onde ele mora e à casa dos vizinhos ver se há focos. Tem que agir rápido para controlar e evitar mais casos. Niterói tem que avaliar o que falhou neste caso específico. É preciso saber quando o caso foi notificado”, afirma Jarbas Barbosa, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. Segundo Barbosa, a ação de “bloqueio” deve ser feita independentemente do tipo do vírus — 1, 2, 3 ou 4. “Não é preciso esperar”, diz.
Pai das estudantes Bárbara Abreu,21, e Carolina Graça, 22, o dentista Luiz Graça afirma que só recebeu a visita dos agentes de endemia para verificar se havia focos na sua casa dia 24. As jovens tiveram os sintomas desde o dia 6.
“Eles só vieram aqui depois que identificaram que minhas filhas tiveram dengue 4 e já estavam bem de saúde”, contou Luiz Carlos. O dentista não sabia que uma bromélia no seu quintal tinha foco de mosquito. Na rua em que mora a família, também foram encontrados focos do inseto. Vários moradores do bairro, na Região Oceânica, estão doentes. “O posto de saúde está cheio. O hospital também. São muitos casos. Eu estou com muita dor no corpo e febre”, conta Janicéia Vicente, 54 anos.
A Prefeitura de Niterói, que tem 203 agentes de endemias e conta com outros cedidos, afirma que não tem como enviar um agente para cada caso suspeito de dengue. A assessoria alegou que, com a determinação do estado de considerar suspeita de dengue todo paciente com febre, dor muscular e nas articulações, não é possível fazer bloqueio em todos os locais.
“Já que não se tem mão de obra, os médicos da prefeitura devem orientar que os pacientes com sintomas verifiquem suas casas e alertem os vizinhos”, diz Edmilson Migowski, infectologista da UFRJ.
População vira fiscal contra doença
O risco de nova epidemia de dengue está transformando muitos moradores do Rio em agentes de saúde. O medo da doença deixa os cariocas de olhos bem abertos para a criação de possíveis focos do mosquito transmissor da doença.
Na Vila Valqueire, Zona Oeste, a piscina de uma clínica de estética abandonada está sendo apontada pelo moradores como ‘piscinão da dengue’. O lugar está com água parada há cerca de um ano e abriga uma grande quantidade de mosquitos. O DIA denunciou em janeiro a situação no local e, segundo a vizinha do imóvel, Marli Salgueiro, de 56 anos, após a reportagem, a prefeitura fez duas vistorias: “Jogaram peixes para acabar com as larvas. Mas como a água é suja, eles estão morrendo”.
Na Zona Norte, um lago do Parque Municipal Jardim do Méier, também é alvo de reclamações. “Está com lixo e plantas, não é cuidado”, observa a assistente social Meriojane dos Santos, 50. Uma pequena cachoeira evitaria que a água ficasse parada, mas o mato alto cria poças d’água. Frequentador do parque, o vendedor Eduardo Lisboa, 45, revelou que o problema já dura cinco anos. “Havia peixes para comer as larvas, mas moradores de rua pescaram”. Também no Méier, o comerciante José Bartolomeu Matheus, 57, investe na prevenção. Ele teve dengue há 5 anos e agora usa repelente 24 horas por dia.
42 estão veículos fora de combate
Quarenta e dois veículos que deveriam combater a dengue estão parados em depósitos das secretarias municipal e estadual de Saúde do Rio e, como O DIA denunciou ontem, moradores temem que a frota tenha se tornado criadouro de mosquito.
Segundo o estado, os 27 veículos fora de operação na Rua Ana Neri, no Rocha, datam de 1996 a 2002. Gasto com manutenção excederia o limite de 40% do valor de venda do veículo, inviabilizando a recuperação. O depósito receberia ações de prevenção ao mosquito. Hoje, 108 veículos do estado combatem a dengue.
Já o município informa que 15 veículos parados no Núcleo de Combate a Dengue de Campo Grande estão em processo de baixa no patrimônio e serão inutilizados, sem condições de conserto. O município tem 220 veículos contra a dengue. O Ministério da Saúde repassou, em 2010, R$ 70 milhões para o fundo municipal e R$ 21 milhões para o estadual de Saúde do Rio.
Reportagem de Clarissa Mello, Diego Barreto, Fernanda Alves e Pâmela Oliveira
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