8 de abr de 2011

Bullying, combustível para o crime

Fonte: O Dia Online


Especialistas dizem que Wellington pode ter sofrido abusos na escola quando criança

Rio - O bullying (humilhação pública na escola) praticado contra um adolescente com esquizofrenia — doença mental que se caracteriza pela ruptura com a realidade — pode ter sido o estopim do massacre.
“Ele sofreu bullying nessa escola e voltou lá anos depois. O bullying foi o termômetro que alimentou a esquizofrenia. Ele preparou tudo de forma minuciosa por anos. Comprou armas, aprendeu a atirar, esperou a comemoração dos 40 anos da escola porque sabia que ex-alunos dariam palestras e poderia entrar facilmente”, diz a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, autora do livro ‘Bullying - Mentes perigosas nas Escolas’.

A especialista afirma ainda que o teor da carta de Wellington indica que ele sofreu abuso sexual. Em um trecho, ele escreveu ‘nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão’. “Isso é muito característico de quem sofreu abuso. Pode ter sido desde insinuações — porque um garoto com predisposição à esquizofrenia é esquisito e pode ter sido confundido com gay — até um estupro”. 


A psiquiatra acredita que, na realidade paralela em que Wellington vivia, ele precisava livrar as crianças de sofrer bullying. “Ele já estava doente há muito tempo”.

Psiquiatra forense, Marcelo Migon acredita que Wellington se julgava terrorista. “Ela acreditava nisso. A carta tem características extremistas”. Especialista em medicina legal e forense, Talvane de Moraes diz que o fato de Wellington ter matado mais meninas pode ter sido influência do islamismo, em que “o homem é melhor do que a mulher”.

Psicopata mata 12 estudantes em colégio municipal

Manhã de 7 de abril de 2011. São 8h20 de mais um dia que parecia tranquilo na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Zona Oeste. Mas o psicopata que bate à porta da sala 4 do segundo andar está prestes a mudar a rotina de estudantes e professores, que festejam os 40 anos do colégio. Wellington Menezes de Oliveira, um ex-aluno de 24 anos, entra dizendo que vai dar palestra. Coloca a bolsa em cima da mesa da professora, saca dois revólveres e dá início a um massacre em escola sem precedentes na História do Brasil. Nos minutos seguintes, a atrocidade deixa 12 adolescentes mortos e 12 feridos. 

Transtornado, o assassino atacou alunos de duas turmas do 8º ano (1.801 e 1.802), antiga 7ª série. As cenas de terror só terminam com a chegada de três policiais militares. No momento em que remuniciava dois revólveres pela terceira vez, o assassino é surpreendido por um sargento antes de chegar ao terceiro andar da escola. O tiro de fuzil na barriga obriga Wellington a parar. No fim da subida, ele pega uma de suas armas e atira contra a própria cabeça.

Na escola, a situação é de caos. Enquanto crianças correm — algumas se arrastam, feridas —, moradores chegam para prestar socorro. PMs vasculham o prédio, pois havia a informação da presença de outro atirador. São mais cinco minutos de pânico e apreensão. Em seguida, começa o desespero e o horror das famílias.

A notícia se alastra pelo bairro. Parentes correm para a escola em busca de notícias. O motorista de uma Kombi para em solidariedade. Ele parte rumo ao Hospital Albert Schweitzer, no mesmo bairro, com seis crianças na caçamba, quase todas com tiros na cabeça ou tórax.

Foto: Leitor Juarez
Foto: Leitor Juarez
Wellington, que arrasou com a vida de tantas famílias, era solitário. Segundo parentes, jamais teve amigos e passava os dias na Internet ou lendo livros sobre religião. Naquela mesma escola, entre 1999 e 2002, período em que lá estudou, foi alvo de ‘brincadeiras’ humilhantes de colegas, que chegaram a jogá-lo na lata de lixo do pátio.

A carta encontrada dentro da bolsa do assassino tenta explicar o inexplicável. Fala em pureza, mostra uma incrível raiva das mulheres — dez dos 12 mortos — e pede para ser enrolado num lençol branco que levou para o prédio do massacre. O menino que não falava com ninguém deixou seu recado marcado com sangue de inocentes estudantes de Realengo.

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