6 de abr de 2011

Saúde: Dengue: Erros de diagnóstico levam cidadãos ao desespero

Fonte: O Dia Online


Pai precisou chamar polícia para filho ser atendido na sétima vez em que procurou UPA

POR CLARISSA MELLO
Rio - Falta de informação, negligência médica e mortes após problemas de diagnóstico têm deixado em desespero cariocas que procuram as unidades de saúde com suspeita de dengue. Pai de Pedro Henrique Melis, 16 anos, o mecânico de refrigeração João Batista Melis, 49, luta há 9 dias para impedir que ocorra com o filho o que aconteceu com a universitária Fernanda de Freitas, 19, que morreu de dengue hemorrágica sábado. Ele chegou a chamar a polícia para garantir atendimento ao filho na UPA de Ricardo de Albuquerque.
Foto: Alessandro Costa / Agência O Dia
Lílian, mãe da estudante morta, criticou o despreparo dos médicos da rede particular e também do SUS | Foto: Alessandro Costa / Agência O Dia
Fernanda morreu 12 horas após ter tido alta. De nove pessoas que morreram pela doença na capital este ano, pelo menos ela e mais três foram vítimas de diagnóstico tardio. 

“Em seis dias, levei meu filho à UPA de Ricardo de Albuquerque sete vezes”, contou João Batista. Os sintomas do rapaz, que é portador de Síndrome de Down, começaram dia 28. Ele teve febre alta e dores de cabeça e no corpo. “Levei à UPA, tenho medo de dengue. O médico diagnosticou como virose e disse que ele deveria beber bastante líquido”, contou o pai. Mas o estado de saúde foi piorando com o passar dos dias: vômitos, dor abdominal, 
manchas vermelhas pelo corpo e febre. 

“Os médicos faziam exames, viam o número de plaquetas baixando e não faziam nada, mandavam para casa sempre”, disse. A gota d’água foi no sábado. “Ele piorou muito, cheguei correndo na UPA, com ele no colo, direto na emergência. Mas a médica disse que não ia atender, que precisava preencher uma ficha. Meu filho morrendo, e ela preocupada com burocracia”, desabafou. 

João teve de recorrer à polícia. “Fui à 31ª DP. O delegado me acompanhou à UPA e meu filho foi atendido”, disse o pai.
 

Foto: Arte
Arte
Mas o drama não acabou. Domingo, o menino começou a vomitar sangue. “Parei de confiar na UPA e o levei ao Hospital Municipal Juscelino Kubitschek (Nilópolis). Internaram meu filho, mas não tinha leito. Ele ficou de domingo até hoje de manhã (ontem) sentado numa cadeira. De tarde, foi para uma cama, finalmente”, contou. “Até agora, nenhum médico me falou se meu filho tem dengue”.

A Secretaria estadual de Saúde informou apenas que fará apuração interna para avaliar se o atendimento na UPA estava de acordo com o protocolo de dengue.

Sucessão de erros levou jovem à morte 

Para a mãe de Fernanda, Lílian Carvalho, 51 anos, a morte da filha foi causada por uma sucessão de erros. O primeiro teria acontecido no Centro Municipal Heitor Beltrão, Tijuca, para onde a jovem foi levada logo que teve os primeiros sintomas da dengue, dia 28. “Os médicos disseram que não podiam atender depois das 17h30”, contou. 

Na quarta, Fernanda foi levada ao Prontocor, na Tijuca, único local em que teria sido bem atendida, segundo a família. Médicos recomendaram hidratação e repouso. Segundo Lílian, nos dois dias seguintes, a febre da jovem desapareceu. Na noite de sexta, embora sem febre, Fernanda teve vômito e dores de cabeça. Sábado pela manhã, foi levada ao Hospital da Barra, onde chegou a vomitar na recepção enquanto aguardava atendimento. A médica receitou dipirona, hidratação e remédios para enjoo, mas não cogitou diagnóstico de dengue e deu alta à paciente. “Não entendo como um médico do Rio não suspeita de dengue, sabendo que a cidade está vivendo uma crise dessas”, desabafou Lílian.

Na tarde de sábado, a jovem piorou mais: tinha falta de ar, pressão baixa, dores na coluna, taquicardia, vômito e sangramento. Foi levada ao Barra D’Or. Mesmo em estado visivelmente grave, demorou cerca de uma hora para ser atendida. “Eu implorei por uma cama. Só conseguimos porque conhecíamos um médico”. Meia hora após ser atendida, teve duas paradas cardíacas e morreu.


“Parece que os pacientes são cobaias”

“Quando levei minha filha ao Hospital da Barra, ela não conseguia nem andar. Achei que ela ficaria deitada numa maca, mas ficou numa poltrona. Só se basearam em um diagnóstico laboratorial, não no clínico. Eu não sabia que, quando acaba a febre, pode ser sinal de agravamento. Mas eu não sou médica. Os médicos precisam saber. Minha filha pagou por eles não estarem preparados, serem inexperientes. Parece que os pacientes são cobaias. Você confia no médico, entrega a vida da sua filha e horas depois ela morre. Se você não tem conhecidos no hospital, a pessoa vai morrer sem atendimento. Se eu não conhecesse, ela teria morrido na recepção. Tenho que denunciar, estou fazendo isso porque quero salvar outras vidas”.

LÍLIAN CARVALHO, 51 anos, mãe de Fernanda
Importante é prestar atenção ao estado geral do doente 

Mais importante do que medir a temperatura, é preciso prestar atenção no estado geral do paciente. O alerta é do infectologista da UFRJ, Edimilson Migowski. Segundo o profissional, no caso da dengue, febre não é parâmetro de agravamento. “A cultura é valorizar a febre. Na dengue, é preciso valorizar outros sinais: vômito, pressão baixa, sangramento, recusa de tomar líquido e dor abdominal”, ensina.

Hoje, a Secretaria Estadual de Saúde irá realizar Curso de Manejo Clínico da Dengue especialmente voltado para profissionais de saúde da rede privada. Serão abordados temas como o critério de caso suspeito, quadro clínico da doença e exames. “Antes tarde do que nunca”, acredita Migowski.

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